quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Analisando Tarantino´s Mind - parte II, o "esfolar" do vídeo

É até compreensível que a curta metragem Tarantino`s Mind continue pouco conhecida do público; fora as dificuldades de encontrar o vídeo, o seu tom nada delicado e submundesco conferido pelos argumentistas/diretores "anônimos" que assinam sob o pseudônimo 300 Ml, as muitas referências (de Cecil B. DeMille à ESPN) que são metralhadas pela tela em menos de doze minutos e mais a temática meio de-fã-para-fã, deram-lhe um certo ar de filme para poucos. Vamos esquecer esse engano. Surpresa geral do Festival de Cinema do Rio em 2006, a produção da Republika Filmes, deixou atónitos até os críticos que só esperavam sair dali dizendo alguma coisa sobre o novo do De Palma (naqueles dias, eram as primeiras exibições de Dália Negra no Brasil); a ousada curta consegue expandir-se de homenagem a um dos maiores cineastas contemporâneos, para uma sedução aos apaixonados por cinema - e não só aos admiradores do, dispensa-apresentações, Quentin Tarantino.

A curta passa-se num bar de São Paulo e reúne, entre cervejas, batatas fritas, palavrões, absurdos e pessoas que talvez sejam intelectuais, filósofos e jogadores de poker; nele, as duas improváveis figuras de Selton Mello e Seu Jorge, como dois cinéfilos, dialogam sobre a filmografia de Quentin Tarantino pretendendo revelar os pontos que ligam toda a obra do cineasta.

Tendo em Seu Jorge um indecifrável interlocutor, Selton - para variar, genial - apresenta a sua tese: jura ter descoberto um tal "código Tarantino" e põe-se a enumerar as provas que evidenciam a ligação entre todos os filmes do autor, de Natural Born Killers, aos dois volumes de Kill Bill. Ou seja, QT teria forjado uma linha única que tornaria as suas histórias todas - e os seus personagens - uma única e épica saga, cujas narrativas iriam muito além do que se vê.

Bem, mas não teria graça se não fossemos extrair e comentar ponto-a ponto alguns dos argumentos levantados pelos dois no bar de Tarantino´s Mind. Vamos a eles, por ordem de aparecimento.

1. Para iniciar a linha investigativa, o personagem de Selton Mello revela (com o ar de teoria da conspiração, tónica do diálogo) que o aspirante a celebridade Jack Scagnetti de Natural Born Killers é o mesmo agente de liberdade condicional de Mr. Blonde no Reservoir Dogs. Contrargumenta o personagem de Seu Jorge: mas o nome dele não era Jack? Sim... Mas depois ele mudou. A coisa toda fica nublada diante de uma discussão sobre os italianos e os sérvios não conseguirem pronunciar nomes difíceis. Fato é que Michael Madsen, como Blonde, comenta sobre seu agente da condicional que, como o Jack, é também um Scagnetti.

2. O melhor é o segundo ponto: a pasta levada por Mr. Pink (Steve Buscemi), após o massacre coletivo em Reservoir Dogs, é a mesma misteriosa mala que John Travolta e Samuel L. Jackson resgatam e escoltam por todo o Pulp Fiction. É realmente uma coincidência (ou não) interessante que o bando do primeiro filme tenha assaltado uma joalharia e que, ao ser aberta, a segunda pasta tenha aquele hipnótico brilho.

3. Ainda em Reservoir Dogs, é dito que o nome de Mr. Blonde é, na verdade Vic Vega. Ora, qual o nome que Mia Wallace mui sensualmente sussurra ao microfone para anunciar John Travolta como seu parceiro naquela antológica cena de dança? Vicent Vega. Para os argumentistas de Tarantino´s Mind é claro: eles são irmãos.

4. Mr. White, antes de integrar o grudo de bandidos de Reservoir Dogs, foi parceiro de Alabama, que casou com o Clarence no obscuro True Romance.

5. A colombiana que dirige o táxi de Butch, em fuga após ter dado um golpe no gangster Marcellus Wallace de Pulp Fiction seria a mesma psicótica, doida por assassinatos em Curdled (produção do Tarantino). Faz sentido, afinal, o que mais interessa a Esmeralda Villalobos enquanto dirige é a pergunta "qual a sensação de matar um homem?", que faz a Butch (Bruce Willis) assim, sem mais nem menos.

6. Num programa de TV em Curdled, aparece a foto dos irmãos Gecko de From Dust Till Dawn, procurados no Texas.

7. Mia Wallace e A Noiva (Kiddo) são a mesma pessoa. Ela só trocaria de nome de acordo com o bandido que estivesse namorando. Antes fora Wallace e, depois, noiva do Bill. Ok, aí já forçaram porque Mia era esposa e não noiva do Marcellus Wallace, fora que, após o doutrinamento com Pai Mei, A Noiva dificilmente iria tornar-se viciada em cocaína. Há ainda problemas de cronologia com isso.

8. O xerife que investiga o massacre na capela de El Passo, Texas, em Kill Bill, é o mesmíssimo que os irmãos Gecko matam a tiro no From Dust Till Dawn. Mais engenhoso que isso, só observar que, após a revelação espiritual que teve em Pulp Fiction, o Jules (Samuek L. Jackson) foi tornar-se pianista nessa mesma igrejinha...

Então, o que acham? Mais alguns apontamentos que tenham percebido em suas audiências tarantinescas?

Priscilla Santos é adoradora de cervejas e colabora com o obvious. Mais informações e textos da sua autoria no seu blog pessoal: Limão Expresso


Vão a http://blog.uncovering.org/archives/2008/01/analisando_tara.html está lá o vídeo da curta metragem...a não perder!

®PetehuntToons
Até que o gato mie!